NOSSAS REDES

AMAZÔNIA

Funai localiza 34 índios isolados e reduz tensão na Amazônia

Folha de São Paulo, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

PUBLICADO

em

 

Um grupo de 34 índios isolados da etnia korubo foi contatado em uma expedição realizada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), o que reduziu as tensões na Terra Indígena Vale do Javari, na fronteira com o Peru, informou nesta sexta-feira (5) o órgão indigenista. O grupo, de 17 mulheres e 17 homens, entre adultos e crianças, corria risco de um conflito com índios da etnia matís.
“Não houve nenhum tipo de resistência ou confronto, pelo contrário, foi um contato super pacífico. Esses índios reencontraram seus irmãos, suas irmãs, seus parentes antigos, seus sobrinhos e agora um universo novo que vai ser aberto de diálogo com esses povos que passam a um contato mais perene e intermitente com o Estado”, disse Bruno Pereira, coordenador da missão e da CGIIRC, o setor da Funai em Brasília responsável pela relação com indígenas isolados ou de recente contato.

A expedição, iniciada no final de fevereiro, durou 32 dias desde a chegada a Tabatinga (AM). Após uma quarentena de onze dias para evitar a transmissão de doenças para os indígenas, a equipe trabalhou oito dias na mata atrás de sinais dos índios na região do rio Coari, com foco nos roçados que haviam sido localizados em sobrevoos e imagens de satélite. “Mas eles não estavam lá, estavam se deslocando para se alimentar de pupunha e atrás de um cipó que costumam usar. No primeiro momento [em 19 de março] eles não estavam com armas ou bordunas, nós também não. Houve bastante emoção nesse momento”, disse Pereira.
“Desde lá estamos entabulando o diálogo com os indígenas e marcando uma nova visita. Não há relatos de doenças até agora, mais de 14 dias [depois]. Eles estavam contagiados por uma malária, não fomos nós que levamos.
Fizemos três exames de malária. Uma malária suave que ainda não tinha estourado, estava meio encubada, podem ter adquirido pela visita dos matís ou de caçadores que andam perto do rio Coari”, disse Pereira.
A expedição envolveu 30 pessoas, incluindo índios da mesma etnia korubo que foram contatados em momentos anteriores e atuaram como intérpretes, uma equipe da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) do Ministério da Saúde, além do apoio remoto do Exército, polícias Militar e Federal e outros órgãos públicos.
Uma expedição de contato dos índios, conhecidos como “korubo do Coari”, em referência ao rio homônimo da região, vinha sendo pedida há mais de quatro anos por indígenas matís, que chegaram a invadir uma base da Funai na região, em 2016, a fim de pressionar o órgão. Além disso, korubos contatados em anos anteriores também passaram a demandar um encontro com seus parentes ainda isolados.
A operação foi discutida no final do governo de Dilma Rousseff, planejada no governo de Michel Temer e agora desencadeada porque os matís voltaram a alertar a Funai, em uma carta à presidência do órgão, sobre o risco de confronto iminente com os isolados. Em 2014, um choque entre as duas etnias deixou dois matís mortos e um número indeterminado de vítimas entre os korubos. A Funai informou na época que ouviu dos korubos a informação de que oito deles morreram no revide. O órgão temia que um massacre pudesse se repetir a qualquer momento.

NÃO CONTATO

Uma expedição com esse porte e objetivo não ocorria há mais de 20 anos. Após o fim da ditadura militar, em 1985, como resultado de contatos catastróficos ocorridos durante o regime militar e antes dele, com a morte de milhares de indígenas até então isolados, a Funai colocou em prática a chamada política do não contato, que vigora até hoje. Lançada também como uma resposta às denúncias das altas taxas de mortalidade feitas por antropólogos, indigenistas e organizações não governamentais ao longo dos anos, ela tem como premissa não ir ao encontro dos isolados e agir apenas em casos pontuais, quando a etnia isolada sofre, por exemplo, uma ameaça concreta.
Em fevereiro passado, um sobrevoo da Funai na região do rio Coari identificou três malocas e cinco áreas de roça a apenas 21 km de uma aldeia dos matís. “O risco de não fazer [o contato] é delegar à sorte. E a sorte para a gente tem dado resultados práticos: foram conflitos e morte. É delegar ao destino, que pode ser oito dias, oito meses ou oito anos. Mas essa proximidade de 20 km de onde os korubos estão, dentro quase da aldeia matís, é um cenário catastrófico, falta um milímetro, um cabelo [para ocorrer um confronto]”, disse Pereira em fevereiro, antes de iniciar a expedição.

A missão foi acompanhada por korubos anteriormente contatados em 1996, 2014 e 2015. Havia parentes korubos que não se viam há anos. A intenção era pedir aos isolados que deixem de frequentar áreas, roças ou malocas ocupadas pelos matís, a fim de evitar um massacre. Os korubos detêm apenas bordunas, e por isso ficaram conhecidos como “caceteiros”, mas os matís já possuem armas de fogo.
“Conseguimos fazer o primeiro diálogo entre matís e korubos. São relações constituídas que envolvem casamento, relações espirituais. Começamos a explicar que não andassem mais naquela região. Eles não entendiam que eram as mesmas pessoas que tinham visitado novamente, suas roças, frutas e iniciando os roçados. Houve o entendimento, a gente conseguiu dialogar nesse sentido com eles e eles disseram que não vão mais andar para lá”, disse Pereira.
Os korubos que já mantinham algum tipo de contato com a população não indígena eram, ao todo, 88 pessoas. Sobre os isolados, não havia número preciso, mas a Funai estimava cerca de 28 no grupo do Coari (dez homens, doze mulheres e seis crianças). Eram 34. Em contrapartida, há mais de 500 matís na região. Outros 30 a 40 korubos vivem em outro grupo isolado, perto do rio Curuena _o segundo grupo não será foco da operação.
CONFLITOS
O Vale do Javari, com seus 8,5 milhões de hectares e cerca de 5 mil índios de sete etnias diferentes, é considerada a região do planeta onde mais existem grupos indígenas isolados. De 28 grupos isolados confirmados no país pela Funai, onze estão no Javari. Há outras 26 informações sobre isolados ainda em estudo na Funai. Embora saiba onde esses grupos estão, a Funai procura manter distância, fazendo apenas o monitoramento sobre eventuais agressões ao território indígena, como caçadores de animais silvestres e ladrões de madeira.
Considerando a política do não contato, a decisão de ir ao encontro dos “korubos do Coari” foi precedida de um intenso debate entre indigenistas do órgão. Eles optaram por desencadear a operação antes que a região habitada pelos matís e korubos seja o palco de uma carnificina. A Folha apurou que a expedição vem sendo discutida há muitos meses, não sendo uma ação determinada por membros do governo Jair Bolsonaro. Eles foram informados pelos técnicos da Funai e passaram a manter o aval político e o apoio financeiro e logístico à expedição.
A última expedição do gênero, desencadeada com o propósito de contato de um grupo isolado, ocorreu em 1996, quando uma expedição liderada pelo sertanista Sidney Possuelo foi ao encontro de um grupo isolado korubo que havia matado a golpes de borduna um morador da comunidade de Monte Alegre. Esses índios, que passaram a ser conhecidos como o “grupo da Mayá”, em referência a uma liderança indígena, recebeu acompanhamento médico e sua população quase dobrou nas últimas duas décadas. Eles foram transferidos para um local perto do rio Ituí, dentro da terra indígena.
Muitos anos depois, em 2014, um grupo de seis korubos isolados foi contatado por índios kanamaris que navegavam pelo rio Itaquaí. No mês seguinte, temendo surtos de doenças que poderiam dizimar os outros korubos que estavam na mata, a Funai fez uma rápida abordagem e contatou outros 15 indígenas. Eles foram reunidos ao “grupo da Mayá”.
A emergência em relação à segurança física dos “korubo do Coari” começou a ser delineada a partir de 2006, quando os matís começaram a se aproximar do rio Coari após a morte da mulher de um cacique. Os matís intensificaram o uso de embarcações entre varadouros conectados ao Coari. Em agosto de 2013, de forma inédita os próprios matís conseguiram gravar em vídeo um contato com alguns korubos.
No final de 2014, o pior aconteceu, quando korubos do Coari e os matís da aldeia Todowak, instalada à beira do rio, entraram em conflito armado. Dois líderes matís, Dame e Ivan, foram mortos pelos korubos. Os matís prometeram vingança e saíram em busca dos isolados. A Funai reconhece que korubos morreram no confronto, mas corpos não foram encontrados.
Em 2015, os matís fizeram um contato por iniciativa própria com um grupo de mais de 21 korubos isolados. A Funai fez um atendimento de saúde às pressas para evitar mortes causadas por doenças. No organismo de um índio isolado ou de recém-contato, por exemplo, um simples resfriado pode evoluir rapidamente para uma pneumonia fatal caso não seja combatido a tempo. Curados, os índios foram reunidos ao “grupo de Mayá” no rio Ituí.
As relações entre a Funai e os matís se deterioraram, a ponto de os índios invadirem o prédio da coordenação do órgão em Atalaia do Norte (AM) em janeiro de 2016. Em fevereiro daquele ano, uma entidade representativa de índios no Javari enviou uma carta à presidência da Funai para pedir providências. Eles disseram que procuram “evitar o conflito”, mas os isolados “Não tem entendimento sobre a nossa cultura”. Os matís disseram que a Funai deveria “trabalhar no sentido de realizar o monitoramento do território dos isolados e atuar na nossa aldeia para garantir um bom atendimento aos índios isolados quando efetuarem contato atrás dos seus representantes indicados”.
Em junho do ano passado, novamente matís chegaram muito perto dos korubos, dos quais tomaram redes de pesca, mas não houve relato de mortes. Ao longo de meses, a Funai estudou os prós e contras do contato no Javari e constatou “risco alto” em quatro indicadores importantes: “relatos de avistamento de isolados no entorno, proximidade comprovada com tensionamento/incidência de doenças infectocontagiosos, demanda/vontade/determinação do reencontro com seus ex-corresidentes e diálogo propositivo limitado entre os matís e a Funai”.
“Em julho do ano passado, houve uma tentativa de contato, clara, [os matís] conseguiram pegar as redes dos índios. Chegaram muito perto deles. Tentaram cercá-los e não conseguiram. Tudo bem, não morreu ninguém, mas se tiver um novo confronto, os matís vão responder da forma deles, tradicional”, disse Pereira.

Advertisement
Comentários

Comente aqui

ACRE

Em busca de alimentos, índios isolados fazem contato em aldeia no AC: ‘Parente bom, não mexe com a gente’, diz cacique

G1AC, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

PUBLICADO

em

Ao menos 10 índios isolados fizeram contato há aproximadamente uma semana com a Aldeia Terra Nova, onde vivem os Kulina Madiha, do Alto Rio Envira, no interior do Acre.

capa: Em busca de alimentos, índios isolados fazem contato em aldeia no AC — Foto: Divulgação/Funai/Arquivo G1. 

Ao menos 10 índios isolados fizeram contato há aproximadamente uma semana com a Aldeia Terra Nova, onde vivem os Kulina Madiha, do Alto Rio Envira, que fica localizada próxima ao município de Feijó, no interior do Acre, na fronteira do estado acreano com o Peru.

Ao G1, o chefe da Aldeia Terra Nova, cacique Cazuza Kulina, disse que um “índio brabo”, como os isolados são chamados, fez contato no local e ainda chegou a passar a noite na casa de um parente do cacique.

“Demos roupas, cobertas, alguns utensílios, macaxeira, banana, dormiu na casa do meu genro. Ele pegou tudo e foi embora, nem vimos quando ele foi embora.”

Sobre a comunicação, Cazuza, que também não fala muito bem o português, disse que eles conseguem se entender.

“São índios brabos, a gente entende um pouco a gíria de índio, são parentes, eles vêm pelo rio em grupos e vão embora para a aldeia deles”, disse.

O cacique disse ainda que no dia seguinte um grupo com mais de 10 índios isolados voltou na aldeia em buscado dos que tinham pernoitado no local. “Eram mulheres, crianças e homens adultos, depois voltaram pelo rio para a aldeia deles. Fica a mais de quatro horas daqui onde eles vivem isolados, mas eles são parentes bons, não mexem com a gente”, afirmou.

O G1 falou com o chefe-substituto da Coordenação Técnica Local da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Feijó, José Augusto Brandão, e ele confirmou o contato.

“Eles contaram que um dos índios foi pescar e se deparou com o grupo de pelo menos 10 pessoas. Eles se aproximaram e pegaram um dos índios e ele foi até a aldeia. Isso ocorreu perto da antiga fazenda Califórnia. Os outros índios brabos foram embora. Eles [kulinas] pegaram o índio para ter contato com ele, até porque eles não se machucam. O isolado passou um dia lá, eles cederam pescado, machado, utensílios de casa e quando amanheceu o dia ele não estava mais lá, foi embora.”

Perigo da Covid-19 nas aldeias

Sobre o contato e o perigo de os índios serem contaminados com a Covid-19 e outras doenças, Brandão disse que depois que começou a pandemia os índios de aldeias estão isolados.

“Os kulinas e demais etnias também estão isolados, nesse momento de pandemia, para evitar que eles sejam contaminados. A Funai e a Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena] estão levando cestas básicas para as comunidades. Eles [indígenas] estão protegidos, só quem vai lá nas aldeias são as equipes médicas que levam o necessários para que eles não precisem ir até a cidade”, afirmou.

Continue lendo

ACRE

Artigo: Mais respeito pelo médico*

Assessoria, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

PUBLICADO

em

Nas últimas semanas intensificaram-se ataques injustos e descabidos à categoria médica, ofensas generalizadas e acusações que não se verificam como reais, por isso acredito ser justo debater o assunto que vem incomodando a mim e aos colegas. A impressão repassada é de ódio contra a classe, não importando o trabalho realizado com dedicação, principalmente nesse período de pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19), em que boa parte da categoria está atuando e correndo risco de contaminação e morte.

Mesmo com risco de comprometer a própria saúde para continuar atendendo as pessoas que mais precisam, o médico continua sendo alvo de ofensas, como vistas nas redes sociais e em outros meios, palavras que trazem apenas a discórdia e a ameaça para as vidas daqueles que buscam curar, independentemente da burocracia governamental e da falta de estrutura.

Existe ainda um desrespeito pelo ato médico, opinião técnica descrita nos prontuários e em rotinas adotadas em hospitais que são exclusivamente pautadas pelo profissional formado em medicina, e que vem sendo questionada de forma oportunista por pessoas de outras áreas, pessoas com nível superior que deveriam entender e respeitar.

Para rebater ataques, o nosso Sindicato dos Médicos do Acre (Sindmed-AC) vem trabalhando diuturnamente, acolhendo a reclamação do profissional e dando apoio aos filiados, acionando a banca de advogados e buscando mostrar que o médico não é o culpado pelos males vividos pelos pacientes.

Faço um recorte da realidade: profissional que sai de casa para um plantão de, no mínimo, 12 horas. Jornada inclui sábado, domingo e feriados, não importando o dia santo ou a data festiva. Mesmo com os problemas causados pelo sistema, o médico está atuando, lutando contra o câncer, contra uma parada cardiorrespiratória e até contra a Covid-19, que vem ceifando vidas de forma surpreendente.

Existem problemas? Sim, sempre, pois o profissional, que por lei tem direito ao intervalo de descanso, muitas vezes, precisa fazer uma jornada sem se alimentar ou sem ir ao banheiro, mesmo sendo um ser humano, uma pessoa, que precisa estar bem para tratar de outras pessoas. Existem vários casos de médicos morrendo durante o próprio plantão, ou atendendo um paciente, enquanto ele mesmo recebe medicação via intravenosa ou um soro.

É importante informar que o paciente ou os acompanhantes chegam à unidade com os ânimos já alterados. Claro, o medo de ter algum problema de saúde que resulte em morte causa alterações de humor, falas mais ríspidas e exaltadas, mas o paciente não é denunciado nas redes sociais ou em jornais por isso, nem tão pouco é negado atendimento. Ele é recebido, medicado e examinado, como prevê o treinamento e o juramento.

É preciso ter respeito pelo profissional e confiar que ele realizará o seu melhor. Não é correto tentar interferir na ação do médico. Outro médico, por dever ético, sabe que não deve interferir na atuação do colega, Outros profissionais também precisam respeitar, pois apenas o paciente pode permitir acesso ao seu prontuário, e o tratamento é discutido entre o paciente e o médico, assim, um terceiro só pode intervir se possuir autorização expressa da parte interessada. Mais respeito ao médico!

*Murilo Batista

Presidente do Sindicato dos Médicos do Acre (Sindmed-AC)

Continue lendo

TOP MAIS LIDAS

    Feedback
    WhatsApp Fale conosco