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Com 2 mortes em 3 dias, Covid-19 ameaça povos isolados na Amazônia

Folha de São Paulo, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

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Em três dias, dois óbitos de índios foram registrados em Vale do Javari, no Amazonas.

Capa: Registro do Contato de 2014 da Expedição Monitoramento e Proteção dos Korubo do Coari.

A Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, registrou as duas primeiras mortes de indígenas por Covid-19 em um intervalo de três dias, aumentando a preocupação com o avanço da pandemia para territórios onde vivem, pelo menos, 19 povos indígenas isolados, a maior concentração de não contatados do mundo.

No domingo (5), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) confirmou a morte de Djalma Marubo, de 83 anos, que morava na Aldeia da Praia, no município de Atalaia do Norte, no Amazonas. Dois dias depois, na terça-feira (8), foi registrada a morte da indígena Neuraci Oliveira, 44, que é de origem Tikuna e era casada com um Kanamari. Ela morreu no Hospital de Guarnição de Tabatinga, na região do Alto Rio Solimões, também no Amazonas, após contrair o vírus no hospital de Benjamim Constant, onde fazia tratamento de saúde.

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Até segunda-feira (6), data do último boletim da Sesai, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Vale do Javari tinha 123 casos confirmados de Covid-19 entre os índios. Eles já haviam denunciado o início da contaminação via agentes da Sesai, que levaram o vírus para as aldeias no início de junho.

Vale do Javari é uma das 488 Terras Indígenas (TI), áreas de propriedade da União, habitadas por um ou mais comunidades indígenas. São bens públicos, e “como tal é inalienável e indisponível, e os direitos sobre ela são imprescritíveis”, informa a Funai (Fundação Nacional do Índio).

As duas mortes em um intervalo tão curto de tempo, o aumento dos casos confirmados, a subnotificação e a ineficácia das ações do poder público em conter o avanço do vírus nos territórios indígenas reforçam a ameaça da Covid-19 aos povos isolados, alerta a Coordenação das Organizações dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

“Não adianta os indígenas ficarem em isolamento se a ameaça continua dentro das terras indígenas, com caçadores, pescadores, garimpeiros e traficantes de drogas invadindo nossos territórios. Eles são vetores de contaminação para a Covid-19”, disse a coordenadora geral da Coiab, Nara Baré, citando o exemplo de Djalma Marubo, que foi contaminado mesmo sem ter saído da aldeia.

De acordo com ela, o avanço dos casos no Vale do Javari e a omissão do poder público frente a essa nova ameaça preocupa tanto que os indígenas decidiram, por conta própria, instalar uma barreira sanitária na área, para controlar o acesso de quem entra e quem sai e, assim, reduzir o risco de contaminação nas aldeias.

“Nosso estilo de vida, em que tudo é comunitário, acelera a disseminação dentro da aldeia, por isso temos que evitar a todo custo que o vírus chegue ao primeiro indígena, ou ele certamente contaminará aldeias inteiras, como já está acontecendo em algumas regiões da Amazônia”, disse Baré.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), cerca de 6,9 mil pessoas de 26 povos indígenas vivem no Vale do Javari, que abriga, além das 19 aldeias de isolados, índios das etnias Korubo, Kanamari, Kulina Pano, Marubo, Matis, Matsés e Tsohom-dyapa, estes últimos de contato recente.

Para o representante da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Chorimpa Marubo, a falta de fiscalização dos órgãos ambientais e indigenistas dentro e no entorno do Vale do Javari vem encorajando o avanço dos crimes ambientais para dentro do território protegido e para cada vez mais perto das aldeias. O fato de a Terra Indígena fazer fronteira com o Acre e com o Peru, áreas onde há trânsito de invasores, também é um complicador, aponta Marubo.

Segundo ele, a Fundação Nacional do Índio (Funai) mantém agentes de fiscalização em apenas uma das quatro bases de fiscalização existentes no Vale do Javari. Nas demais bases, bem como na barreira sanitária instalada na área, a fiscalização cabe aos próprios indígenas, que atuam de maneira voluntária para tentar controlar o acesso aos territórios.

“Nosso maior medo nesse momento são os isolados. Nós temos que protegê-los, pois eles têm uma imunidade muito baixa e, infelizmente, há muitos intrusos nesses territórios, onde o acesso é livre pelos varadouros, e essas pessoas podem levar a doença para eles. E, se o Covid chegar lá, vamos perder muitas vidas”, alertou Marubo.

A baixa resposta imunológica que os indígenas têm para vírus, como o novo coronavírus, é também uma das preocupações da coordenadora geral da Coiab, Nara Baré.

E essa preocupação tem fundamento. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em parceria com a Coiab revelou que a taxa de mortalidade (óbitos por 100 mil habitantes) por Covid-19 entre indígenas é 150% maior que a média dos brasileiros não indígenas. Já a letalidade entre os indígenas, ou seja, a proporção de pessoas infectadas pelo vírus que morreram, é de 6,8%, também acima da média nacional, de 5%.

“É cientificamente comprovado que os indígenas têm um sistema imunológico com menor resistência, vide como alguns vírus, como a gripe, varíola e sarampo, dizimaram as comunidades indígenas nas décadas de 1970 e 1980, após os primeiros contatos com os isolados. Se para nós, que temos contato com o mundo aqui fora, o risco já é maior, para eles, que são isolados, pode ser uma catástrofe”, disse Baré.

Em toda a Amazônia brasileira, a Coiab registrou, até o último dia 7, mais de 8 mil casos confirmados de Covid-19 em 99 povos indígenas e 390 óbitos, que atingiram 67 povos diferentes na Amazônia. Com a maior população indígena, o Amazonas é o estado com o maior número de óbitos de indígenas pela doença: 168 – 57 delas entre indígenas Kokama. Em seguida aparecem o Pará (74), Roraima (44) e Mato Grosso (43).

Sobre a morte de Neuraci Oliveira, no Hospital de Tabatinha, a Secretaria de Saúde do Amazonas (Susam) informou que ela estava recebendo “toda a assistência médica possível”, inclusive com suporte respiratório. Estava na estava na fila para transferência para Manaus, mas não resistiu.

Ainda segundo o governo estadual, foram enviados aos municípios do interior do Amazonas (entre eles Tabatinga) 108 respiradores e, atualmente, o estado conta com 116 UCIs, em 33 municípios, três vezes mais do que antes da pandemia. Não há leitos de UTI no interior do Amazonas.

A Funai não se manifestou até a conclusão deste texto.

Por Monica PrestesFolha UOL

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ACRE

Em busca de alimentos, índios isolados fazem contato em aldeia no AC: ‘Parente bom, não mexe com a gente’, diz cacique

G1AC, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

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Ao menos 10 índios isolados fizeram contato há aproximadamente uma semana com a Aldeia Terra Nova, onde vivem os Kulina Madiha, do Alto Rio Envira, no interior do Acre.

capa: Em busca de alimentos, índios isolados fazem contato em aldeia no AC — Foto: Divulgação/Funai/Arquivo G1. 

Ao menos 10 índios isolados fizeram contato há aproximadamente uma semana com a Aldeia Terra Nova, onde vivem os Kulina Madiha, do Alto Rio Envira, que fica localizada próxima ao município de Feijó, no interior do Acre, na fronteira do estado acreano com o Peru.

Ao G1, o chefe da Aldeia Terra Nova, cacique Cazuza Kulina, disse que um “índio brabo”, como os isolados são chamados, fez contato no local e ainda chegou a passar a noite na casa de um parente do cacique.

“Demos roupas, cobertas, alguns utensílios, macaxeira, banana, dormiu na casa do meu genro. Ele pegou tudo e foi embora, nem vimos quando ele foi embora.”

Sobre a comunicação, Cazuza, que também não fala muito bem o português, disse que eles conseguem se entender.

“São índios brabos, a gente entende um pouco a gíria de índio, são parentes, eles vêm pelo rio em grupos e vão embora para a aldeia deles”, disse.

O cacique disse ainda que no dia seguinte um grupo com mais de 10 índios isolados voltou na aldeia em buscado dos que tinham pernoitado no local. “Eram mulheres, crianças e homens adultos, depois voltaram pelo rio para a aldeia deles. Fica a mais de quatro horas daqui onde eles vivem isolados, mas eles são parentes bons, não mexem com a gente”, afirmou.

O G1 falou com o chefe-substituto da Coordenação Técnica Local da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Feijó, José Augusto Brandão, e ele confirmou o contato.

“Eles contaram que um dos índios foi pescar e se deparou com o grupo de pelo menos 10 pessoas. Eles se aproximaram e pegaram um dos índios e ele foi até a aldeia. Isso ocorreu perto da antiga fazenda Califórnia. Os outros índios brabos foram embora. Eles [kulinas] pegaram o índio para ter contato com ele, até porque eles não se machucam. O isolado passou um dia lá, eles cederam pescado, machado, utensílios de casa e quando amanheceu o dia ele não estava mais lá, foi embora.”

Perigo da Covid-19 nas aldeias

Sobre o contato e o perigo de os índios serem contaminados com a Covid-19 e outras doenças, Brandão disse que depois que começou a pandemia os índios de aldeias estão isolados.

“Os kulinas e demais etnias também estão isolados, nesse momento de pandemia, para evitar que eles sejam contaminados. A Funai e a Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena] estão levando cestas básicas para as comunidades. Eles [indígenas] estão protegidos, só quem vai lá nas aldeias são as equipes médicas que levam o necessários para que eles não precisem ir até a cidade”, afirmou.

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ACRE

Artigo: Mais respeito pelo médico*

Assessoria, via Acre.com.br - Da Amazônia para o Mundo!

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Nas últimas semanas intensificaram-se ataques injustos e descabidos à categoria médica, ofensas generalizadas e acusações que não se verificam como reais, por isso acredito ser justo debater o assunto que vem incomodando a mim e aos colegas. A impressão repassada é de ódio contra a classe, não importando o trabalho realizado com dedicação, principalmente nesse período de pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19), em que boa parte da categoria está atuando e correndo risco de contaminação e morte.

Mesmo com risco de comprometer a própria saúde para continuar atendendo as pessoas que mais precisam, o médico continua sendo alvo de ofensas, como vistas nas redes sociais e em outros meios, palavras que trazem apenas a discórdia e a ameaça para as vidas daqueles que buscam curar, independentemente da burocracia governamental e da falta de estrutura.

Existe ainda um desrespeito pelo ato médico, opinião técnica descrita nos prontuários e em rotinas adotadas em hospitais que são exclusivamente pautadas pelo profissional formado em medicina, e que vem sendo questionada de forma oportunista por pessoas de outras áreas, pessoas com nível superior que deveriam entender e respeitar.

Para rebater ataques, o nosso Sindicato dos Médicos do Acre (Sindmed-AC) vem trabalhando diuturnamente, acolhendo a reclamação do profissional e dando apoio aos filiados, acionando a banca de advogados e buscando mostrar que o médico não é o culpado pelos males vividos pelos pacientes.

Faço um recorte da realidade: profissional que sai de casa para um plantão de, no mínimo, 12 horas. Jornada inclui sábado, domingo e feriados, não importando o dia santo ou a data festiva. Mesmo com os problemas causados pelo sistema, o médico está atuando, lutando contra o câncer, contra uma parada cardiorrespiratória e até contra a Covid-19, que vem ceifando vidas de forma surpreendente.

Existem problemas? Sim, sempre, pois o profissional, que por lei tem direito ao intervalo de descanso, muitas vezes, precisa fazer uma jornada sem se alimentar ou sem ir ao banheiro, mesmo sendo um ser humano, uma pessoa, que precisa estar bem para tratar de outras pessoas. Existem vários casos de médicos morrendo durante o próprio plantão, ou atendendo um paciente, enquanto ele mesmo recebe medicação via intravenosa ou um soro.

É importante informar que o paciente ou os acompanhantes chegam à unidade com os ânimos já alterados. Claro, o medo de ter algum problema de saúde que resulte em morte causa alterações de humor, falas mais ríspidas e exaltadas, mas o paciente não é denunciado nas redes sociais ou em jornais por isso, nem tão pouco é negado atendimento. Ele é recebido, medicado e examinado, como prevê o treinamento e o juramento.

É preciso ter respeito pelo profissional e confiar que ele realizará o seu melhor. Não é correto tentar interferir na ação do médico. Outro médico, por dever ético, sabe que não deve interferir na atuação do colega, Outros profissionais também precisam respeitar, pois apenas o paciente pode permitir acesso ao seu prontuário, e o tratamento é discutido entre o paciente e o médico, assim, um terceiro só pode intervir se possuir autorização expressa da parte interessada. Mais respeito ao médico!

*Murilo Batista

Presidente do Sindicato dos Médicos do Acre (Sindmed-AC)

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